Momento Engolir Sapos
“A vida é desenhar sem borracha… Chupa essa manga, kkkkk…”
Muitos são capazes de cometer suicídio; outros homicídios… Eu sou aquela, que cometo sempre “sincericídio” e não me arrependo nunca por isto! Matar algo por sinceridade é morrer e nascer várias vezes!
(roubado do Facebook de Ligia Parreira)
Tem dias em que revisar uma vida dá um pouco de mau humor e principalmente certa preguiça de tudo. De tempos em tempos passamos por pequenas decepções profissionais e pessoais que se somam a outras pequenas ciladas do cotidiano que nos fazem repensar em que parte erramos e em que hora deveríamos dar o basta, ou o bom chute no traseiro. Trabalho com moda há muito tempo e optei por ter um pequeno atelier onde consigo colocar todo o meu lado criativo pra fora sem medo e sem amarras, o que nem sempre é bem entendido pelas pessoas que só veem vitória se você está num patamar superior visto pelo ângulo dela, ou seja, bem sucedido é aquele que TEM e não o que FAZ e se satisfaz. Ter um big apartamento mesmo não precisando de tanto espaço, morar num bairro de vitoriosos (se é que existe bairro assim), dirigir um gigantesco carro com tração até no estepe e ser acompanhado por um ser de gigantescas proporções (bunda, músculos, cabelo e carão que esconde pouca massa cinzenta e por aí a fora), faz de você um “super homem”. Uma grande quantidade de pessoas se esquece de perguntar o que realmente lhe agrada e o que realmente lhe faz feliz, e tiram as conclusões através de suas frustrações para classificar o que é bom ou ruim para sua vida. Como não tenho grandes máquinas, amontoados de funcionários e centenas de imóveis alguns acham que o que faço é tão menor que nem se preocupam se isso é legal ou não para as minhas pretensões. Ser visto desta forma é muito frustrante e triste, pois o que sempre tenho na mente é o prazer de ter feito parte de algo que realmente me agrada e achar que desta forma contribuo com alguma coisa boa e bonita neste planeta cheio de coisas ruins e feias. Mais chato ainda quando esta falta de sensibilidade vem de pessoas que de alguma forma te conhece ou pelo menos sabe de suas limitações. Só como exemplo vou comentar dois episódios em que sofri este tipo de descriminação.
Certa vez uma cliente mãe de uma amiga me encomendou um vestido para ser usado no casamento de seu filho, o que me fez muito feliz, pois conhecia parte da família e me senti honrado em poder participar com o meu trabalho deste belo momento. No primeiro contato já veio com defeito, a cliente me traz folhas arrancadas de revistas e de possíveis produções que lhe agradavam e com um pouco de inocência (achava eu naquele momento) me sugeriu copia-los assim poderia ter exatamente o melhor feito com menor custo. Educadamente convenci à senhora que não fazia cópias e o que desejava era impossível pela verba destinada para tal traje, que no caso era um magnifico conjunto de casaco em veludo bordado sobre vestido em seda plissada assinada por Giorgio Armani. Depois de muito papo fiquei de desenhar modelos que dentro da minha capacidade criativa, seria satisfatório para exigente criatura. Semanas depois tinha alguns croquis, provas de tecidos e cores para sugerir à cliente. Ela acabou escolhendo um modelo bem adequado para o evento, o seu tipo físico e principalmente para o seu bolso. Foram feitas duas provas, alguns ajustes e tudo sempre com aprovação da senhora que a meu ver estava bem feliz com o resultado. Na terceira prova que na verdade era para tirar pequenas duvidas de comprimento e caimento, ficou combinado a entrega da roupa dias depois bem as vésperas da cerimonia. Por desejo da própria cliente a entrega ficou para o dia seguinte, dia do casamento, para facilitar a própria agenda da senhora que passaria por perto pela manhã no meu bairro. Terminado tudo fiquei eu e a minha costureira a espera da madame caso fosse necessário qualquer ajuste de última hora e nada da perua aparecer, até chegar um momento em que pedi a uma amiga que ligasse e perguntasse se tinha havido algum imprevisto pelo atraso pois estava preocupado com o escasso tempo que corria. Depois de várias tentativas recebemos o retorno horas depois da louca que comunicou que tinha mudado de ideia e estava em um shopping comprando um vestido porque achou por conta dela que não teríamos capacidade de terminar a sua roupa, alegando que eu tinha vacilado na voz quando aceitei que viesse pegar a encomenda no dia seguinte. Finalizando, a megera queria a devolução do sinal que dera e ainda se achou no direito de criticar a minha postura, pois estava acostumada no passado a receber de presente belos vestidos de grandes estilistas, nesta hora percebi que nem médio estilista eu era. Combinei que o máximo que poderia fazer pela bruxa era que ela escolhesse uma das peças que cobrissem o valor dos 50% já pagos. Resumo, a vaca nunca pegou peça alguma e ainda mandou a filha me cobrar pelo extinto Orkut (ainda existe?), me expondo como um caloteiro que não cumpre com o combinado.
Se fosse o Armani ela faria o mesmo? E é claro, eles devolveriam o sinal de algumas centenas de dólares a clientes indecisas de trajes feitos sobre medida e aprovados pela mesma?
Um caso mais recente foi de um “amigo” de décadas que encomendou uma cópia de algo que jamais faria por achar feio e sem graça, mas abrindo exceção pela amizade, de um casacão cheio de bolsos e detalhes, que da mesma forma em que trabalho, foram feitas provas e ajustes. A peça foi entregue na data combinada, usada pelo cliente em uma viagem, devolvida inclusive lavada e perfumada para se colocar mais bolsos satisfazendo o seu desejo. Semanas mais tarde ele me encomendou uma segunda cópia por ter chegado tardiamente a conclusão que não tinha gostado da cor. O cliente chato comprou novo tecido por sua conta, mesmo não entendendo nada do assunto, com uma cor quase igual a do anterior, e por fim achou que eu deveria aceitar a primeira peça com pagamento da segunda já que tinha desistido da mesma depois de algum tempo. Como não aceitei e só cobrei a facção do modelo, escutei com grosseria que não era justo, pois como não era a cor que pretendia e o novo modelo não tinha o caimento do anterior e ele se achava no direito de ver o meu trabalho perdido e não pago, e ainda mencionou que jogaria tudo no lixo por não estarem perfeitas como o velho casaco que serviu de piloto. Ele levou os dois casacos e nunca me pagou o segundo e ainda saiu bufando não levando em consideração os muitos anos de amizade perdidos por uns míseros casacos feiosos.
Eu fico décadas pesquisando moda para receber estes loucos que questionam o que escolhem e aprovam e ainda por cima, acham que este trabalho não tem valor algum já que não foram comprados em lojas refinadas com um monte de vendedores rabugentos que nem te olham na cara caso venha reclamar de uma venda mal sucedida.
Se caso eu fosse fabricante de camisetas promocionais de baixa qualidade, fabricadas por um punhado de et’s, pagos com sementes de papoula e queijo coalho, todos presos num galpão fedido num subúrbio bem quente e distante, essa gente me veria com melhores olhos e muito mais respeito.
De Gang
Foto: Empresário bem sucedido e sua equipe de trabalho (escravo).
Fotomontagem by De Gang
(23 JAN 2012)









Momento Mau Comportamento

