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Momento procura-se estilo…

Wednesday, March 12th, 2008

Jornal De Gang

(15)


 Momento procura-se… 


“O negocio é dar a Elza na roliça…”

A Procura-se estilo. Vivo ou morto…

Eu venho dos meados dos anos 50, e o máximo que me lembro são das imensas saias balão e dos sapatos, bolsas e luvas do mesmo material e cor, que toda mulher elegante da época usava. Vindo a seguir os maravilhosos anos 60 com os vestido tubinho, dos casaquinhos curtinhos e sapatos de saltos pequenininhos e o gigantesco penteado bolo-de-noiva. Isto me faz lembrar ainda criança que minha querida mãe, que ia ao salão quase toda semana e sempre era questionada pela cabeleireira se guiava. Isso era pra saber de que lado colocaria o pega rapaz (aquela virgula lateral feita nos cabelos). Se fosse motorista era para esquerda se não o contrario.

Seguindo as mudanças temos os loucos anos 70, que na minha adolescência foi a grande descoberta da moda e seus efeitos sobre mim. Com as suas roupinhas apertadinhas, sujinhas e coloridinhas, com suas calças de cintura super baixa, bocas-de-sino e nesgas para aumentar tamanho da boca, que cobriam sapatos com grandes plataformas ou sandálias feitas de pesadas solas de pneu. Para acompanhar, tínhamos cabelos que também eram sujinhos, compridos, encaracolados ou amarfanhados mesmo. Não existia o poderoso alisamento progressivo e no máximo que se podia fazer era, passar o cabelo no ferro quente. Essa era uma prática já muito usada no período anterior. Todo esse visual era para demonstrar liberdade, amor e paz. Ou seja, era pôr um perfume patchuli, fumar muito, falar muito e querer transar com todo mundo, num planeta, que a principio parecia ser feliz e coloridissimo.

No final desta década e inicio dos 80 temos o movimento punk. O qual me encaixei muito bem, com uma moda bem reacionária, transgressora e agressiva. Este novo estilo mostra o faça-você-mesmo e o eu-não-estou-nem-aí-pra-você, que pontuava o uso da cor preta como base, acompanhada de adereços de couro e metal na linha grampos, pregos e tachinhas, com estampas políticas e criticas em t-shirt propositalmente rasgadas. Tudo isso com pesado coturno de exercito e cabelos de cores extravagantes e cortes esquisitos.

Nesta época, numa festa em minha casa, um jovem punk que não sei amigo de quem era, possuía uma crista quilométrica, montada com ajuda de muito sabão seco, que pulava e pulava por debaixo de uma arvore, ate que num movimento mais radical, deu com a cabeça em um galho e desmaiou em meu quintal. Nada mais punk…

Daí entram os gloriosos anos 80 e o estilo é o new wave, com suas grandes e montanhosas ombreiras (eu usava ombreiras tão volumosas que conseguia dormir em mim mesmo), cores cítricas, formas geométricas e combinações divertidas para se criar personagens igualmente divertidos, tudo com muito gel, glitter e grafismos. Nunca se divertiu tanto numa moda só. Éramos forçados a criar modelitos inéditos a cada dia para se poder dar asas à imaginação e a numerosas festas que rolavam à mil nestes ótimos tempos. Deste movimento surge o new romantismo que misturava antigos estilos de épocas bem antigas, combinados a muita maquiagem e atitude blasé. Era a era do snobismo europeu de cortes e realezas fajutas ditas por roupas barrocas e modernas ao mesmo tempo.  Esta onda nos fazia ficar horas em frente a um espelho, ate terminar uma demorada produção de vestuário com muitas rendas, babados e franjas elaboradas a base de muito laquê. Nesta época eu era um tipo de objeto de adorno na faculdade, por ficar horas sentado num jardim a espera de aulas que nunca me encaixava.

Seguindo as tendências (não as mesmas ditas hoje em dia, palavra que me da arrepios ultimamente), vem o movimento pauperismo, inventado pelos estilistas japoneses em Paris que nada mais era do que misturar a elegância nipônica ao new romantismo, com excesso de preto e cinza, dando um aspecto de pobre e sujo (só no visual e não no real já que a base era os linhos e tecidos super naturais), criando personagens lindos e soturnos bem rasgadinhos e elegantérrimos. Com este estilo, eu andava com imensos lenços negros enrolados no pescoço, que conforme me empolgava com o assunto em bares, rasgava as pontas ate fabricar pequenos montes de tecidos em frangalhos ao meu redor. Uma vez uma velha senhora estrangeira me aparece e comenta que, de tudo que já tinha visto no mundo, nunca tinha presenciado alguém tão bem vestido se autoflagelar em publico na vida.

Do pauperismo ao darkismo e logo depois o minimalismo dos anos 90 com o menos e o “sem muitos detalhes”, o que não me diz nada já que faço parte do muito (risos), caindo no grunge da década seguinte, que é o menos ainda só que mais mal-ajambrado.  

Cruzes, que cu…

É nesse momento que entramos nos anos zero (2000), e nada mais aconteceu. Tivemos os revivais de uma década inteira, que foi a dos anos 70, com muitas calças cinturas baixas e batinhas, só que sem a sujeirinha e a liberdade, paz e amor.  

E com o passar dos anos, e olha que já são oito anos, e nada muda a não ser mais revival de anos bem próximos tipo agora os anos 80. E nem se passou 20 anos e continuamos a repetir coisas já ditas e feitas sem se acrescentar nada de novo a elas.

Eu saio na rua e vejo hordas de gente se vestindo iguais, fazendo coisas iguais e sem nenhuma identidade possível. Que se jogam em um estilo de vida sem personalidade, onde cada um é todos e ninguém se destaca por não estar na moda. É a onda do pé sujo, cervejinha em pé, xixi no pé e pé no lixo. Quantos pés meu Deus…

E o que é pior sem identificação de classes ou tribos já que a indumentária da moda é a mesma em qualquer lugar ou grupo. A única diferença é os que tem poder aquisitivo pra comprar a grife cara e o resto que compra em lojas de departamentos ou em camelôs mesmo, já que é a mesma informação pra todos.

Será que vivemos o estilo bermudoismo-floridismo, ou o batinhismo-de-visco-laycrismo, ou quem sabe a do chinelismo-havaianismo????

Tô fora…

De Gang

Foto: Vestido cinza, meia de vinil com scarpin de plataforma em onça.
(Nada mais estiloso…)