Momento Foto-braço
Sunday, October 12th, 2008Jornal De Gang
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Momentos foto-braço
Fiz recentemente uma exposição no atelier de fotos do making of do ultimo desfile de minha grife. Fotos feitas por uma querida amiga que registrou com suas mágicas lentes, momentos raros e belos de um trabalho longo, cansativo e muito gratificante, momentos os quais não pude observar com atenção por total falta de tempo e sanidade, devido à correria do dia e o excesso de solicitações que uma produção como esta nos exige. Neste instante de meu trabalho, na maioria das vezes, nos impede de curtir o evento como ele é, só nos sobrando lapsos de memórias de muita coisa perdida ou cenas não digeridas. As fotos mostram exatamente isso, sorrisos furtados de algum assunto que não ouvi, ou belos rostos plácidos em total relaxamento num caos total de um camarim. O melhor desses registros são, ângulos muito especiais de coisas que numa situação comum não nos chama a atenção. Objetos, cenas, caras, posições, ou seja, tudo que uma lente pega e perpetua para sempre, se transformando num maravilhoso documento de uma vida.
Eu especialmente adoro este tipo de fotografia, que geralmente depende de talento, sorte e muita sensibilidade no momento do clic derradeiro.
Com a invenção das câmeras digitais e a facilidade de operá-las e de se tê-las, a fotografia ganhou uma popularidade meio jeca. Todo mundo tem câmeras, tira fotos, de tudo e de todos, que acabam entupindo o HD de um computador por inteiro e nunca tendo uma utilidade prática. Na maioria das vezes estas imagens entopem blogs e álbuns pessoais na Internet que pouco interessa a quem não faz parte deste grupo ou meio. Em suma, um monte de imagens chatas com fisionomias chatas, rindo e fazendo o que mais detesto; caras e bocas de gente de muito glamour sem a exuberância do termo.
Acho realmente um saco ir a festas, eventos ou nada em especial e ver ou ser fotografado por qualquer um, me vendo mais tarde em uma filinha de pessoas com sorrisos dentadura e eu como sempre, fazendo um esforço sobrenatural pra me sentir bem e relaxado com esta invasão de almas que é a fotografia instantânea de festas.
Eu freqüentava uma casa noturna que contrata uma profissional da foto pra pegar os amigos e famosos que são posteriormente exibidos em telões a noite toda, numa repetição de caras que da ate sono. O mais engraçado é a própria fotografa que aparece na maioria das fotos na mesma posição e com o mesmo carão de “legal-eu-estou-aqui”, com o bracinho esticado virando o que chamo de ‘foto-braço’. Se o convidado é importante, ele aparecera em vários cliques, sempre com o mesmo semblante já cansado de mostrar todos os dentes, dando-lhe o estilo sorriso de miss, (amarelo e sem graça). É um saco mesmo, ver a mesma expressão em seqüência, por uma noite inteira.
Tenho amigos que já sabem que cara fazer para fotografias em eventos. Dão-lhe poses a la Gisele, Madonna e até a nossa velha de guerra Gretchen, em fisionomias congeladas e sem um pingo de modificação. Já ate sugeri se fazer carimbos de caras auto-adesivos, assim é só colar nas fotos em que você não compareceu ou no momento exato estava no banheiro na hora do ‘chega-aqui’, ‘junta-mais’, ‘atenção’, ‘sorria’ e ‘tira a mão em forma de chifre da cabeça do seu amigo’.
Morro de tédio ver fotos de socialites, sempre se colocam na posição rainha da primavera, com o corpinho em ângulo, pezinhos um à frente do outro, como se ensinavam no curso de etiqueta da antiga Socila, e a tradicional cara de total felicidade, pois estou sendo fotografada. Eu ainda sou famosa… Eu ainda sou jovem… Eu ainda valho uma foto…
A garotada é o mais sério, pois se fotografam sem parar, o tempo todo, sempre em bandos, sempre empilhados, quase sempre de cima para baixo, fazendo todo mundo ficar desproporcional, (cabeções e corpinhos) e caras e caretas de gente de circo, com línguas, olhos e mãos em forma de algo que você nunca entende pra que serve ou o que significa. É careta ou expressão de desconforto interno?
Os marrentos (gente grande com cabeça de gente miúda) que sempre se fotografam em grupinhos, como crianças. Em poses marciais, tipo eu luto alguma coisa e adoro fingir que estou pronto pra briga. Caras maldosas, ou seria vontade de ir à casinha? Mãozinhas na forma fálica ou um tipo duplo falo (V). Sempre de cuecas a mostra sem as camisas, numa exibição de músculos e ‘molúsculos’ desnecessários. Não sei realmente o que é este estilo de pose, mas é bem boboca.
Tem a foto popozuda, onde a dita cuja se coloca com todos os seus ângulos pra frente, se contorcendo de uma forma sobre-humana para se passar sexy e absurdamente natural os seus atrativos turbinados. Da-me uma aflição ver estas moças tão gostosas e tão tortinhas. É bunda, peito e periquita no meso ângulo. Ai que dor…
E esta onda de fotos comprometedoras de poses patéticas, eróticas e na maioria bizarras, que sempre acabem vazando na Internet. Acho bem ridículo você se deixar fotografar assim para pseudos namorados ou sei lá que tipo de relação seria esta e nunca imaginar que este estilo de exposição possa virar um dia chacota publica num computador. Foto só de roupinha, e mesmo assim com vigilância máxima em gordurinhas, papinhos e pontinhos desfavoráveis a um ser humano bacana.
Sinto falta dos álbuns de antigamente, com fotos em papel, com paisagens de viagens passadas, ou com familiares lindos em épocas bem mais felizes e tranqüilas, onde cada um tinha a sua cara e o seu jeito de se mostrar.
Abaixo o digitalismo desenfreado e a volta do fotografo profissional com suas lentes maravilhosas.
De Gang

